A sujeira em Gran Dolina é teimosa. Ela guarda segredos enterrados sob camadas de lodo e do tempo no norte da Espanha. Novas descobertas abalaram o que pensávamos saber sobre o Homo antecessor.
Durante anos, a narrativa foi simples. Esses parentes antigos praticavam o canibalismo. Mas eles eram exigentes. Eles tinham como alvo os vulneráveis. Bebês. Crianças. A presa fácil de um clã rival.
Essa história ficou complicada.
Pesquisadores que analisaram fósseis do complexo da Serra de Atapuerca encontraram evidências de consumo por adultos. Isso muda a linha do tempo e o terror. Não se trata apenas de eliminar os fracos. É sobre comer os fortes.
Adultos no cardápio do Gran Dolina
O local fica em um sistema de cavernas de calcário. Faz parte de uma zona arqueológica maior que produziu detalhes chocantes sobre o comportamento humano há 850 mil anos.
Um novo lote de fósseis mudou o cálculo. Duas dúzias de ossos. Dentes. Fragmentos de crânio. Segmentos da coluna vertebral. Ossos dos braços e das pernas. Eles vieram de vários membros do Homo antecessor.
Escavações anteriores sugeriram uma tendência sombria. O canibalismo era restrito principalmente aos jovens. Jovem, indefeso e mais fácil de matar. Por que arriscar se machucar lutando contra um adulto? Essa era a lógica predominante.
Não mais.
A última escavação mostra marcas de corte em ossos de adultos. As cicatrizes das ferramentas de pedra são claras. Eles correspondem aos padrões de açougue vistos em animais. A evidência é gritante.
“A descoberta de mais indivíduos adultos… demonstra que o canibalismo não se restringiu aos indivíduos mais jovens”, disse Palmira Saladié à imprensa. Saladié é antropólogo biológico do IPHES. Ela coordenou o novo estudo.
Os dados apontam agora para pelo menos 13 indivíduos. Aproximadamente metade são adultos.
Andre Ollé, também do IPHES, observou a mudança. Mais indivíduos. Mais adultos. Isto oferece uma imagem muito mais completa da população. Não foi apenas alimentação oportunista. Foi sistêmico.
Como provar que o canibalismo aconteceu
Como você prova que uma espécie comeu sua própria espécie? A trilha forense em Gran Dolina é específica.
Não basta encontrar ossos próximos uns dos outros. A natureza mistura ossos. A dispersão dos catadores permanece. Você precisa de evidências concretas de processamento.
Os pesquisadores analisaram ferramentas de pedra. Pedra. Quartzito. Arenito. Essas ferramentas foram encontradas na mesma camada dos restos mortais. As marcas nas ferramentas correspondem às marcas de corte nos ossos.
Mas há um detalhe mais sombrio. Marcas de mordidas humanas.
“Alguns dos ossos humanos também tinham marcas de mordidas humanas”, observou Saladié.
Marcas de mordida são a arma fumegante. As ferramentas podem ser usadas em madeira ou carne de forma intercambiável. Os dentes são mais especializados. Dentes humanos em osso humano sugerem consumo. Não apenas limpar a medula. Consumo.
Os ossos dos animais contam uma história paralela. Hienas. Castores. Cervo. Cavalos. Rinocerontes. Seus ossos mostram técnicas de açougue semelhantes. As mesmas mãos que abriram um fêmur de veado abriram um fêmur humano.
Por que eles comeram um ao outro?
O “o quê” está resolvido. O “porquê” permanece obscuro.
Sabemos que eles fizeram isso. Por razões nutricionais? Razões ritualísticas? Sobrevivência? Ou todas as opções acima?
O Homo antecessor viveu na Europa entre 1,2 milhão e 760 mil anos atrás. Eles eram nossos parentes. Não exatamente nós, mas perto o suficiente para compartilhar ancestrais.
Em 2010, um estudo destacou o enfoque juvenil. Fazia sentido do ponto de vista da gestão de riscos. Mate os jovens. Pegue a carne. Evite os dentes de um adulto lutador.
Agora, os ossos adultos estão lá. Por que ir para o alvo difícil?
Marina Mosquera, outra arqueóloga do IPHES, vê potencial nos novos dados. “Nós apenas começamos a escavar esta nova área”, disse ela. “Os primeiros resultados já demonstram o seu enorme potencial científico”.
O potencial está nas respostas a perguntas difíceis.
- Os adultos foram comidos para obter benefícios nutricionais específicos?
*O tamanho do adulto forneceu mais calorias? - O canibalismo foi usado como ferramenta de violência intergrupal?
- Foi uma prática funerária, semelhante ao endocanibalismo visto em algumas sociedades modernas?
Os pesquisadores estão agora analisando os ossos em busca de diferenças relacionadas à idade. Eles querem mapear a frequência desses episódios. Comprimento. Freqüência. Contexto.
Isto lançará luz sobre a organização social do Homo antecessor. Eram grupos coesos? Ou eles estavam constantemente em guerra com bandos vizinhos?
Um capítulo mais sombrio na evolução humana
Tendemos a higienizar o passado. Imaginamos nossos ancestrais como simples coletores. Ou nobres caçadores.
Gran Dolina rejeita o romance.
Essas pessoas eram inteligentes. Eles fizeram ferramentas. Eles caçavam animais grandes. Eles viviam em um ambiente desafiador.
E eles comeram sua própria espécie.
Não é único no registo fóssil, mas é raro nesta profundidade. Há muito tempo atrás. Isso força uma reavaliação do comportamento humano inicial. Violência. Desespero. E talvez, apenas talvez, um componente cultural que não tenhamos desvendado totalmente.
O trabalho está em andamento. Mais sujeira o aguarda. Mais segredos aguardam na escuridão daquela caverna espanhola.
Isso muda a forma como vemos as raízes da natureza humana? Deveria. Isso nos lembra que a linha entre “nós” e “eles” – e entre “civilizado” e “selvagem” – sempre foi mais tênue do que gostamos de admitir.
Os ossos não mentem. Eles apenas esperam para serem ouvidos.


























